Feijoada

por Nina Horta

Feijoada de Ana Judith, para 15 pessoas: Para a feijoada: 1 1/2 quilo de feijão preto 1 língua de porco defumada e pequena 250 gramas de lombo de porco salgado 1 pezinho de porco salgado 1 orelha de porco não muito grande e salgada 2 rabinhos salgados 2 paios 1 salsichão 300 gramas de lingüiça de porco fresca e grossa 300 gramas de lingüiça fina 250 gramas de toucinho defumado magro 1/2 quilo de carne seca 250 gramas de costelas defumadas 1/2 quilo de lombinho de porco fresco 2 folhas de louro 3 dentes de alho 4 colheres de sopa de óleo sal Para os acompanhamentos: 8 laranjas tipo bahia ou pera arroz branco caseiro couve à mineira farofa de ovo molho de pimenta. Modo de fazerColoque o feijão triado e lavado, de molho, de véspera. Faça o mesmo e separadamente com a carne seca e o lombo salgado, tendo o cuidado de mudar a água duas vezes. Limpe e lave bem a língua de porco, o pezinho, a orelha e os rabinhos. Limpe a carne de peito e o lombinho fresco. Escalde os paios. Coloque o feijão para cozinhar em bastante água, inclusive a água onde ficou de molho, com o louro e o toicinho. Após uma hora de fervura vá juntando as carnes, na seguinte ordem: a língua defumada, a carne seca cortada em pedaços grandes, o pé e os rabinhos de porco, os paios e as costelas defumadas, o lombo salgado, a carne de peito, o lombinho fresco, a orelha de porco, o salsichão inteiro e as lingüiças cortadas em pedaços grandes. Acrescente água quente na medida do necessário, de modo a manter as carnes permanentemente cobertas pelo caldo. Durante o cozimento, feito normalmente em dois caldeirões, escume a feijoada. Quando os grãos estiverem macios e o caldo mais ou menos grosso, tempere o feijão com 3 dentes de alho bem socados, dourados em 4 colheres de sopa de óleo. Prove o sal e torne a escumar para retirar qualquer excesso de gordura. Retire duas conchas cheias de grãos e amasse com garfo até obter uma pasta. Misture com a feijoada e abaixe o fogo. Descasque as laranjas retirando as peles e sementes e corte em pedaços não muito grandes. Guarde na geladeira até o momento de servir. Prepare arroz caseiro, couve à mineira e farofa de ovos para 15 pessoas. Misture o molho de pimenta com 1 colher de sopa de aguardente e com 1 1/2 concha de caldo de feijoada. Sirva todas as carnes cortadas em pedaços regulares, numa travessa, e a feijoada numa terrina funda e com tampa. Os demais acompanhamentos são distribuídos por travessas.

Feijoada à Minha Moda

Feijoada à minha moda
Vinícius de Moraes Amiga Helena Sangirardi Conforme um dia eu prometi Onde, confesso que esqueci E embora - perdoe - tão tarde (Melhor do que nunca!) este poeta Segundo manda a boa ética Envia-lhe a receita (poética) De sua feijoada completa. Em atenção ao adiantado Da hora em que abrimos o olho O feijão deve, já catado Nos esperar, feliz, de molho E a cozinheira, por respeito À nossa mestria na arte Já deve ter tacado peito E preparado e posto à parte Os elementos componentes De um saboroso refogado Tais: cebolas, tomates, dentes De alho - e o que mais for azado Tudo picado desde cedo De feição a sempre evitar Qualquer contacto mais...vulgar Às nossas nobres mãos de aedo Enquanto nós a dar uns toques No que não nos seja a contento Vigiaremos o cozimento Tomando o nosso uísque on the rocks. Uma vez cozido o feijão (Umas quatro horas, fogo médio) Nós, bocejando o nosso tédio Nos chegaremos ao fogão E em elegante curvatura: Um pé adiante e o braço às costas Provaremos a rica negrura Por onde devem boiar postas De carne-seca suculenta Gordos paios, nédio toucinho (Nunca orelhas de bacorinho Que a tornam em excesso opulenta!) E - atenção! - segredo modesto Mas meu, no tocante à feijoada: Uma língua fresca pelada Posta a cozer com todo o resto. Feito o que, retire-se o caroço Bastante, que bem amassado Junta-se ao belo refogado De modo a ter-se um molho grosso Que vai de volta ao caldeirão No qual o poeta, em bom agouro Deve esparzir folhas de louro Com um gesto clássico e pagão. Inútil dizer que, entrementes Em chama à parte desta liça Devem fritar, todas contentes Lindas rodelas de lingüiça Enquanto ao lado, em fogo brando Desmilingüindo-se de gozo Deve também se estar fritando O torresminho delicioso Em cuja gordura, de resto (Melhor gordura nunca houve!) Deve depois frigir a couve Picada, em fogo alegre e presto. Uma farofa? - tem seus dias... Porém que seja na manteiga! A laranja, gelada, em fatias (Seleta ou da Bahia) - e chega. Só na última cozedura Para levar à mesa, deixa-se Cair um pouco de gordura Da lingüiça na iguaria - e mexa-se. Que prazer mais um corpo pede Após comido um tal feijão? - Evidentemente uma rede E um gato para passar a mão... Dever cumprido. Nunca é vã A palavra de um poeta...- jamais! Abraça-a, em Brillat Savarin O seu Vinícius de Moraes.

O Pão

por Nina Horta
O Brasil tem muitas padarias que fazem pão fresco o dia inteiro. O pão mais comum é semelhante à baguete francesa e é chamado de pão francês. O pão para sanduíche e canapés é o pão de forma, que pode ser encontrado de várias qualidades. As padarias vendem também outros tipos de pães salgados e doces, roscas, tranças e pãezinhos franceses pequenos.

Farofa

por Nina Horta

A farofa é um gosto a ser adquirido, mas, depois de adquirido, difícil

de ser deixado. É a simples farinha de mandioca somente passada na manteiga, quando se torna úmida e crocante, ou completamente transformada, quando misturada com ovos ou lingüiça, torresmos, couve rasgada ou centenas de outras possibilidades. Deve ser comida logo depois de feita, quente ou à temperatura ambiente. É o acompanhamento mais constante da cozinha brasileira e serve também para rechear aves, como frango e peru assados.

Feiras

por Nina Horta
Em qualquer dia da semana pode-se ir a uma feira. Uma ou mais ruas são fechadas para o trânsito e os feirantes lá se arrumam com suas barracas já ao nascer do dia. Os pregões para a venda das mercadorias são animados, gritados ou cantados, sempre com senso de humor, refletindo o momento político, a última fofoca... O cheiro e o colorido das frutas e verduras, o ambiente descontraído, fazem da feira um belo passeio para quem quer conhecer de perto a fartura e variedade de ingredientes. Nas barraquinhas encontramos frutas nativas, como mamão, abacaxi, banana, fruta do conde, abacate, caqui, maracujá e goiaba, e também frutas aclimatadas, como maçã, peras, uvas, mangostões e kiwis. Os legumes e folhas frescas também são abundantes, especialmente em cidades como São Paulo, onde os imigrantes japoneses aumentaram o leque de escolhas. É possível comprar alcachofras, aspargos, beterrabas, brócolis, cenouras, couves-flores, pepinos, berinjelas, muitos tipos de alface, pimentas variadíssimas. Os mercados são como as feiras, mas em ambientes fechados, vendendo de tudo, desde o produto nativo ao importado.

Dez Cardápios Cotidianos

por Nina Horta

1 - Salada de alface com cubinhos de pão fritoCarne assada, de panela, com batatas coradasSuflê de milho verdeArroz branco solto. Sobremesa: pudim de leite

2 - Salada de legumes cozidosPicadinho de carne com banana fritaOvos estreladosFarofaArroz Sobremesa: gelatina com frutas

3 - Salada de palmitoPeixe doré com molho de camarãoArroz soltoCouve-flor empanada Sobremesa: doce de goiaba com queijo-de-minas

4 - Bacalhau ao forno com batatas, tomates, azeitona. Sobremesa: salada de frutas.

5 - Feijoada completaArroz, farinha, laranja em rodelas, couve picadinha. Sobremesa: sorvete de limão.

6 - Salada mistaCamarão com chuchuArroz. Sobremesa: doce de abóbora com coco.

7 - Frango ao molho pardo com quiabo e anguArrozFarofa de ovo. Sobremesa: arroz doce com canela.

8 - Salada de alfaceMacarronada ou macarrão ao forno. Sobremesa: creme de chocolate e frutas.

9 - Salada de vagem com alecrimRosbifeArroz de forno e creme de milho. Sobremesa: doce de banana em rodelinhas.

10 - Lombo de porco com tutu de feijãoOvos cozidos com batatas fritasArroz. Sobremesa: cocada branca e queijo-de-minas fresco

Sobremesas

por Nina Horta

A sobremesa fecha com chave de ouro a refeição, e o brasileiro não a dispensa. Pode ser uma torta, um pudim, uma salada de frutas, uma compota com queijo, um sorvete, frutas. Das frutas, as mais conhecidas são a banana, a goiaba, a manga, o maracujá, a fruta do conde, mas talvez a mais amada seja a jabuticaba. Principalmente a jabuticaba no pé. Vejam como Elizabeth Bishop descreveu a jabuticabeira: "A árvore é linda, as flores amarelo-esverdeadas, peludinhas, cheirosas e crescem pelo galho inteiro, e as frutas brotam direto do galho, do tronco, encostadas neles, como milhares de grandes cerejas pretas." Os brasileiros gostam de seus doces bastante doces, como os mouros, os portugueses, os austríacos. Há um tipo de doce que é seguido pela preposição "de" e o nome da fruta: doce de goiaba, doce de mamão, doce de figo. Há também doces sólidos ou em pastas que podem ser cortados com faca. Geralmente levam o sufixo "ada": goiabada, marmelada, pessegada, cocada. Os sorvetes feitos com as frutas brasileiras são deliciosos, como o sorvete de abacaxi, de manga, de coco. O abacate, no Brasil, é comido com açúcar, como creme de abacate ou sorvete de abacate. Um modo gostoso de aproveitá-lo é parti-lo ao meio, retirar o caroço, juntar um pouco de açúcar, vinho do Porto e castanha do Pará ralada e ir comendo às colheradas.

Arte Popular

A constituição e a consolidação de técnicas artesanais no Brasil são o resultado de transculturações entre índios, negros e brancos ocorridas ao longo de quatro séculos. A partir do século XIX, a imigração européia trouxe para a cultura nacional novos aportes, como o dos italianos, alemães, poloneses e pomeranos que, junto aos grandes grupos étnicos de japoneses, sírios e libaneses, incorporaram ao cotidiano um elenco de práticas culturais que se refletiram em inúmeros e diferentes aspectos da cultura material do País.
No período colonial, particularmente no caso único da urbanização das cidades do ouro de Minas Gerais, o aspecto religioso das corporações de artífices aparece com clareza através da sua estreita ligação com irmandades e ordens terceiras. Entre outros fatores, a forte miscigenação responde pela presença numerosa de mestiços artesãos de grande apuro técnico, constituindo uma classe servil, mas livre, entre outros motivos porque a comprovação de destreza em certos ofícios equivalia em muitos casos a uma carta de alforria. Nesse período, também a presença de artistas jesuítas e franciscanos na construção de templos e aldeamentos indígenas foi uma matriz importante para a formação de artífices da terra.
No final do século XVIII e na primeira metade do XIX começou a emergir a noção de autoria entre artistas de grande inventividade, como é o caso, em Minas Gerais, do Aleijadinho (1738-1814), gênio do barroco, e do pintor Manuel da Costa Athayde, seu contemporâneo (1762-1830). Até então, ainda eram fluidos os limites entre arte e artesanato, como se pode ver pela simultaneidade das funções de pintor e dourador num mestre Athayde, que fazia encarnação de imagens, prateamento e douração da talha, ao lado de belíssimas composições ilusionistas para os grandes forros e painéis parietais das igrejas.
Ao mesmo tempo, seriam raros os douradores capazes de candidatar-se à pintura das "visões" dos grandes tetos dos templos, o que desenha uma certa gradação entre arte e artesanato. São fronteiras fluidas, mas reais, que permanecem até hoje, como mostram os trabalhos de um José Antonio da Silva, um Antonio Batista de Souza (Antonio Poteiro) e um Geraldo Teles de Oliveira (o G.T.O), ao lado da produção da louça de barro ou da tecelagem geradas por comunidades de artífices. O que não significa que o artesão popular não esteja sempre deixando a marca da sua pessoa e da sua mão no recriar cotidiano da tradição.
Com a geração dos escritores árcades, contemporânea de Aleijadinho, patenteia-se um crescente sentimento nativista, um olhar mais próximo sobre a terra, que formará as bases, entre nós, para o movimento em nível nacional do Romantismo, no século XIX. Deu-se aí, como de resto em todo o mundo ocidental, a revolta contra o Iluminismo do século anterior. A relação entre igualdade/liberdade, de corte quantitativo, foi substituída por uma outra, qualitativa, que privilegiou a singularidade/liberdade. Os românticos foram os primeiros a enfatizar a particularidade e as expressões regionais das sociedades históricas.
Ao avançar o século XIX, a geração dos românticos foi a primeira a manifestar um interesse mais amplo, ainda que idealizado, pelas culturas dos índios, dos negros e dos sertanejos. Os poetas e escritores românticos se voltaram para a questão do negro, militando pela abolição da escravidão, descrevendo a natureza tropical e recorrendo a uma imagem do índio idealizada, mas de intenção recuperadora. No final do século, ainda que despreparados para dar conta do seu significado e do seu valor plástico peculiar, historiadores começaram a registrar a criação visual das camadas pobres, como aconteceu com as carrancas do Rio São Francisco.
No âmbito da literatura tiveram origem os primeiros trabalhos de folclore. Foi a partir de críticos e historiadores como Silvio Romero (1851-1914) que a cultura popular passou a receber um tratamento mais digno e a ser avaliada com maior objetividade. Romero foi o verdadeiro fundador dos estudos de folclore no Brasil. Mais moço que ele, porém, seu contemporâneo Euclides da Cunha (1888-1909) escreveu o notável Os Sertões, onde a sociedade brasileira é retratada através do episódio messiânico-sertanejo de Canudos.
Aproximadamente uma década após a morte de Romero e de Euclides, já estava formada a geração dos modernistas brasileiros, que ganharam expressão pública na Semana de Arte Moderna de 22. Esta geração partiu para a descoberta do Brasil sem discriminar entre o "popular" e o "culto", procurando evidenciar a dimensão relacional que sempre existira entre esses universos. Hoje, estudiosos consagrados da história das mentalidades, como Peter Burke e Carlo Ginzburg, demonstram que sempre houve, na Europa moderna (1500-1800), uma circularidade, um vaivém, um permanente movimento de mão dupla, de "subida" e "descida" extremamente enriquecedor entre os níveis da "cultura alta" e a do "povo comum".
Os modernistas brasileiros se deram conta deste fenômeno. Mário de Andrade, expoente do pensamento da sua geração, escreveu em relação ao recalque do "popular" pelas classes altas: "Há que forçar um maior entendimento mútuo, um maior nivelamento (leia-se equilíbrio) geral da cultura que, sem destruir a elite, a torne mais acessível a todos, e em conseqüência lhe dê uma validade verdadeiramente funcional. Está claro, pois, que o nivelamento não poderá consistir em cortar o tope ensolarado das elites, mas em provocar com atividade o erguimento das partes que estão na sombra, pondo-as em condição de receber mais luz".
Um dos objetivos fundamentais do movimento modernista era, portanto, estruturar os meios que pudessem atender à coletivização - à democratização - do saber, num país onde este era discriminado entre o "culto" e o "popular". Mário e vários modernistas inclinaram-se para o exame das diversidades existentes em nossa terra, que aos poucos foram formando um corpo coerente de referência. Queriam entender a arte popular de hoje como um todo, relacionando-a com a sociedade. Os modernistas das gerações de 22 e de 30 viram ainda nascer a Escola de Sociologia e Política de São Paulo (1933), a Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da Universidade de São Paulo (1934) e a Universidade do Distrito Federal, no Rio de Janeiro (1935), que passaram a conferir os padrões científicos da antropologia às áreas do saber até então limitadas aos estudos de folclore.
Em 1947, ano em que a Comissão Nacional de Folclore foi criada pelo modernista Renato Almeida, o pintor Augusto Rodrigues organizou no Rio de Janeiro uma mostra do mestre Vitalino - Vitalino Pereira dos Santos - que veio a ser conhecido como um dos maiores artistas-ceramistas do País. Depois que escritores, pintores, músicos, arquitetos, antropólogos e historiadores, sem deixar de voltar-se para o universal e a criação de vanguarda, debruçaram-se de maneira mais próxima sobre a realidade brasileira, procurando nela os elementos que conformariam a identidade do País, nada mais natural e conseqüente do que o surgimento e aceitação dos próprios artistas de outras camadas sociais.
Artistas emergentes do povo, como Vitalino, Severino de Tracunhaém, Cardosinho e Heitor dos Prazeres, encarnaram para a nova mentalidade esse movimento de mão dupla, de encontro. Por sua vez, entre os artistas da norma culta, Cândido Portinari (1903-1962) retratava a vida cotidiana das camadas de baixa renda no campo e nas cidades; Alberto da Veiga Guignard (1896-1962), Roberto Burle Marx (1909-1994), Di Cavalcanti (1897-1976), Tomás Santa Rosa (1909-1956) e José Pancetti (1904-1958) retratavam empregadas domésticas, fuzileiros e trabalhadores urbanos e rurais; e Tarsila do Amaral (1890-1973) abordava a paisagem brasileira, a religiosidade popular e o operariado paulistano, já incorporando, à escala cromática de uma de suas fases, os azuis e rosas que chamava de "caipiras".
Ainda entre os artistas da norma culta, o escultor Victor Brecheret (1894-1995) realizou extraordinária obra em São Paulo, com uma fase onde um repertório de formas de arte indígena é profundamente absorvido. Vicente do Rego Monteiro (1899-1970), por sua vez, transfunde elementos indígenas marajoaras em momentos de linguagem formal de sua pintura; e Alfredo Volpi (1896-1988), autodidata e trabalhando à margem de movimentos, funde elementos visuais do popular à linguagem erudita, seja através da figura, da abstração ou da síntese simbólica de ambas.
São estes uns poucos exemplos, retirados do quadro das artes visuais dos anos 20, 30 e 40, que mostram o interesse dos artistas eruditos pelo universo das classes populares e pelas culturas tribais. No entanto, é preciso ressaltar que os próprios artistas das camadas pobres não foram em absoluto agentes passivos do seu processo de reconhecimento pelas elites. Por seu lado, experimentaram as mudanças desencadeadas pela industrialização e pela era do rádio, transformando-se também. O mestre Vitalino, por exemplo, partiu da relativa uniformidade do figurado de barro feito antes na sua região como brinquedo de criança - daí o termo "bonecos" - para o que seus amigos e companheiros de ofício, numa clara indicação da consciência da renovação visual que tinha lugar no Alto do Moura, em Caruaru (Pernambuco), chamavam de "inventação de motivo de boneco". Renovação que terminou por dar origem a uma verdadeira "escola" de ceramistas naquela localidade, onde hoje 160 famílias vivem da arte do barro.

Lélia Coelho Frota

Escritora, antropóloga e crítica de arte, Lélia Coelho Frota coordena o Programa Integrado de Apoio ao Desenvolvimento Cultural do Vale do Jequitinhonha, da Secretaria de Estado da Cultura de Minas Gerais. É membro da União Brasileira de Escritores, da Associação Brasileira de Antropologia e da Associação Brasileira de Críticos de Arte. É autora de livros sobre arte e cultura brasileiras, entre os quais Mitopoética de 9 Artistas Brasileiros (Rio de Janeiro, Funarte, 1978), Ataíde (São Paulo, Editora Nova Fronteira, 1983), Mestre Vitalino (Editora Massangana, 1986) e Burle Marx: Paisagismo no Brasil (Câmara Brasileira do Livro/Brasiliana de Frankfurt, 1994). Foi responsável pelas representações brasileiras nas Bienais de Veneza de 1978 e 1988 e curadora da exposição Brésil, Art Populaire Contemporain, no Grand Palais (Paris, 1987). Recebeu os prêmios Jabuti (Câmara Brasileira do Livro) e Olavo Bilac (Academia Brasileira de Letras) pelo livro Menino Deitado em Alfa (Editora Quíron, 1978).

Corporações de Artífices

por Lélia Coelho Frota
Em Portugal, as corporações medievais não se estruturaram com o mesmo rigor das suas congêneres européias, pois na Casa dos 24, criada em 1422, os artífices se distribuíam por igual número de corporações, com seus respectivos juízes. Caracterizavam-se aí as gradações profissionais de companheiro, aprendiz, oficial e, finalmente, mestre, que devia comprovar sua mestria para o juiz do seu ofício, por sua vez nomeado pela Câmara Municipal. Em 1523, foram criados em Lisboa os Regimentos dos Oficiais Mecânicos, transplantados para o Brasil mais por tradição que por um sistema institucionalizado. Se em Portugal essas corporações de ofícios já haviam assumido caráter mais religioso do que de propriedade de oficina, no Brasil, onde era diverso o papel da Câmara Municipal, elas se tornaram mais frouxas e descaracterizadas. Se por um lado esse fato poderia trazer menor rigor na formação dos artífices, por outro lhes concedeu a folga com a qual puderam adestrar-se, inserindo no seu trabalho a marca das suas etnias e adaptando às obras que realizavam os materiais novos que o meio ambiente americano oferecia. E não se pode esquecer que índios e negros traziam consigo técnicas centenárias do fazer manual. Estas se mesclaram ao saber dos mestres-de-obras portugueses, vindos da tradição de construir luso-oriental e moçárabe, familiarizada com as exigências dos climas quentes. Portanto, não foi muito significativa a abolição, em 1824, das corporações de ofícios no Brasil, pois na realidade os artífices já se haviam formado através de modos muito diferenciados de qualificação. Acompanhando o processo de ruralização, tônica da organização econômica e social da Colônia, foram se configurando as técnicas da marcenaria, alvenaria, olaria, tecelagem, pintura, talha e encarnação de imagens.

Imigração

por Boris Fausto
A vinda de imigrantes para o Brasil, ressalvada a presença dos portugueses - colonizadores do País - delineia-se a partir da abertura dos portos às "nações amigas" (1808) e da independência do País (1822). À margem dos deslocamentos populacionais voluntários, cabe lembrar que milhões de negros foram obrigados a cruzar o oceano Atlântico, ao longo dos séculos XVI a XIX, com destino ao Brasil, constituindo a mão-de-obra escrava.Os monarcas brasileiros trataram de atrair imigrantes para a região sul do País, oferecendo-lhes lotes de terra para que se estabelecessem como pequenos proprietários agrícolas. Vieram primeiro os alemães e, a partir de 1870, os italianos, duas etnias que se tornaram majoritárias nos estados de Santa Catarina e Rio Grande do Sul. Entretanto, a grande leva imigratória começou em meados de 1880, com características bem diversas das acima apontadas. A principal região de atração passou a ser o estado de São Paulo e os objetivos básicos da política imigratória mudaram. Já não se cogitava de atrair famílias que se convertessem em pequenos proprietários, mas de obter braços para a lavoura do café, em plena expansão em São Paulo. A opção pela imigração em massa foi a forma de se substituir o trabalhador negro escravo, diante da crise do sistema escravista e da abolição da escravatura (1888). Ao mesmo tempo, essa opção se inseria no quadro de um enorme deslocamento transoceânico de populações que ocorreu em toda a Europa, a partir de meados do século XIX, perdurando até o início da Primeira Guerra Mundial. A vaga imigratória foi impulsionada, de um lado, pelas transformações sócio-econômicas que estavam ocorrendo em alguns países da Europa e, de outro, pela maior facilidade dos transportes, advinda da generalização da navegação a vapor e do barateamento das passagens. A partir das primeiras levas, a imigração em cadeia, ou seja, a atração exercida por pessoas estabelecidas nas novas terras, chamando familiares ou amigos, desempenhou papel relevante. Nas Américas, pela ordem, os Estados Unidos, a Argentina e o Brasil foram os principais países receptores de imigrantes. No caso brasileiro, os dados indicam que em torno de 4,5 milhões de pessoas imigraram para o país entre 1882 e 1934. Destes, 2,3 milhões entraram no estado de São Paulo como passageiros de terceira classe, pelo porto de Santos, não estando, pois, aí incluídas entradas sob outra condição. É necessário ressalvar, porém, que, em certas épocas, foi grande o número de retornados. Em São Paulo, por exemplo, no período de crise cafeeira, (1903-1904), a migração líquida chegou a ser negativa. Um dos traços distintivos da imigração para São Paulo, até 1927, foi o fato de ter sido em muitos casos subsidiada, sobretudo nos primeiros tempos, ao contrário do que sucedeu nos Estados Unidos e, até certo ponto, na Argentina. O subsídio consistiu no fornecimento de passagem marítima para o grupo familiar e transporte para as fazendas e foi uma forma de atrair imigrantes pobres para um país cujo clima e condições sanitárias não eram atraentes. A partir dos anos 30, a imigração em massa cedeu terreno. A política nacionalista de alguns países europeus - caso típico da Itália após a ascensão de Mussolini - tendeu a colocar obstáculos à imigração para a América Latina. No Brasil, a demanda de força de trabalho, necessária para o desenvolvimento industrial, passou a ser suprida, cada vez mais, pelas migrações internas. Habitantes do Nordeste do País e do estado de Minas Gerais abandonaram suas regiões em busca do "el-Dorado paulista". Na década de 30, somente os japoneses, ligados à pequena propriedade agrícola, continuaram a vir em grande número para São Paulo.Em anos mais recentes, a imigração para o Brasil, qualitativamente, diversificou-se bastante. Novas etnias se juntaram às mais antigas, como é o caso da imigração de países vizinhos - Argentina, Uruguai, Chile, Bolívia etc. - tanto por razões profissionais como políticas. Coreanos passaram a compor a paisagem da cidade de São Paulo, multiplicando restaurantes e confecções. Após os primeiros anos de dificuldades extremas, que não foram muito diversas das que atravessaram em outros países, os imigrantes acabaram por se integrar à sociedade brasileira. Em sua grande maioria, ascenderam socialmente, mudando a paisagem sócio-econômica e cultural do Centro-sul do Brasil. No Sul, vincularam-se à produção do trigo, do vinho, e às atividades industriais; em São Paulo, impulsionaram o desenvolvimento industrial e o comércio. Nessas regiões, transformaram também a paisagem cultural, valorizando a ética do trabalho, introduzindo novos padrões alimentares e modificações na língua portuguesa, que ganhou palavras novas e um sotaque particular.Os imigrantes europeus, do Oriente Médio e asiáticos (portugueses, italianos, espanhóis, alemães, judeus, sírios e libaneses, japoneses) influenciaram a formação étnica do povo brasileiro, sobretudo na região Centro-sul e Sul do País. Tendo em conta as contribuições de índios e negros, disso resultou uma população etnicamente diversificada, cujos valores e percepções variam de um segmento a outro, no âmbito de uma nacionalidade comum.

Boris Fausto

Doutor e livre-docente pela Universidade de São Paulo (USP), onde se formou em Direito (1953) e em História (1967), Boris Fausto é professor do Departamento de Ciência Política da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP. Entre seus principais trabalhos incluem-se: A Revolução de 1930. Historiografia e História (São Paulo, Brasiliense, 1970), Trabalho Urbano e Conflito Social (São Paulo, Difel, 1975), Crime e Quotidiano. A Criminalidade em São Paulo, 1880-1924 (São Paulo, Brasiliense, 1984), Historiografia da Imigração para São Paulo (São Paulo, Sumaré/Idesp, 1991) e História do Brasil (São Paulo, Edusp, 1994). Editou quatro volumes da História Geral da Civilização Brasileira (Rio de Janeiro, Bertrand Brasil), referentes ao período republicano.

Moda

por Glória Kalil
Em vez de falar de moda brasileira, seria mais cuidadoso e acertado falar de moda no Brasil, o que é um pouco diferente. Assim mesmo, ainda no caminho da cautela e do acerto, temos que definir melhor de que moda e de que Brasil estamos falando. Tratando-se de vestuário, podemos, com tranqüilidade e sem nenhum arroubo separatista, dividir o Brasil em dois países diferentes. O Brasil urbano das grandes cidades, iguais a todas as outras do mundo, ligado a uma atividade de escritórios, bancos, restaurantes, teatros, museus, clubes noturnos; e o Brasil do sol, ligado ao lazer, aos apelos do mar que cobre mais de 7 mil quilômetros de sua costa.
Em cada um deles, um estilo de vida; para cada um deles, uma moda diferente. Nas cidades, a moda é internacional. As tendências européias, americanas e japonesas são absorvidas a cada estação e imediatamente amoldadas ao clima do País, mas conservando totalmente suas propostas de estilo. Podemos afirmar que não há uma moda brasileira urbana, e sim uma adequação às tendências internacionais. São Paulo e Minas Gerais são os pólos de produção e divulgação desta moda sofisticada e cosmopolita. Esta adaptação, porém, é feita com grande criatividade por parte dos estilistas brasileiros, que conseguem dar, através dos tecidos, cores e proporções, uma cara de Brasil ao mais severo modelo japonês, à mais descontraída criação belga, ao mais precioso drapeado francês.
Sim, porque se o Brasil não lança tendências, ele harmoniza essas tendências ao gosto brasileiro, que é muito específico. Brasileiro gosta de cor, gosta de minissaia, gosta de camiseta, gosta de roupa justa (daí o sucesso das fibras elásticas, como a lycra) e gosta, mais do que qualquer outro povo do mundo, de jeans. Talvez em função de ser um País de população jovem, o jean foi adotado em massa e tornou-se com o tempo uma espécie de uniforme nacional, superando qualquer condição de idade, sexo e poder econômico. Usa-se o jean da manhã à noite, no short, na bermuda, na calça, na saia, na jaqueta. Na praia, na cidade, com sandália, sobre o maiô, com blazer e com gravata. Uma saudável e democrática unanimidade nacional.
Mas, se na cidade o Brasil segue a moda, na praia ele inventa. E como inventa! Nesta faixa ele é imbatível: cria a cada ano novidades que serão seguidas e copiadas pelo resto do mundo, ainda que com prudência, pois são invenções atrevidas, ousadas demais para climas e mentalidades não tão tropicais (embora aqui, caiba falar de um paradoxo. Por menor que seja o tamanho do biquíni, curiosamente, o Brasil nunca adotou o top less. Tem que ter top, por mínimo que seja: top, yes - less, never). Tendo o sol e o mar diante dos olhos o ano todo, o País tem no biquíni e nas modas de praia sua grande criação. A cada estação uma nova proposta de proporção, uma nova cor, um novo escândalo. Tangas, sunkinis, fio dental, asa delta, cortininhas e outros nomes maliciosos e cheios de humor configuram esses inacreditáveis e minúsculos objetos de desejo e de consumo.
O laboratório vivo destas peças, a passarela de imaginação, difusão e produção é a cidade do Rio de Janeiro, especialmente a praia de Ipanema. É lá que a moda vira realidade viva e criativa. É nesta praia "linda e cheia de graça" que os pareôs são enrolados, amarrados a cada ano de uma forma diferente; que as camisetas aparecem uma hora cortadas, outra, rasgadas, pintadas, recriadas; que os biquínis sobem ou descem, os short esticam ou encolhem; que novas gírias são inventadas; que novos drinques são experimentados; que novas musas são eleitas; que novos surfistas são reverenciados e novas músicas consagradas.
Mais acima, no sul da Bahia, entre areias e coqueirais, aparece Trancoso, uma das mais lindas cidadinhas do litoral, quase vilarejo, que com toda sua singeleza ostenta uma surpreendente posição no universo dos lançadores de moda. É lá que se consagra, e é de lá que se propaga, através de um turismo jovem e informado, nacional e internacional, um dos mais provocantes, ingênuos e femininos objetos da moda: o vestidinho de algodão. Decotado, justo, curto, quase sempre estampado. Um look atemporal, vestido das Gabrielas do escritor Jorge Amado, vestido de moça pobre, de moça rica, de menina, de mulher. Do fundo dos tempos e a dos anos 90. E por fim, o Nordeste, com suas rendas brancas, seus bilros, seus bordados no linho e nas cambraias, que nos remetem, pelo menos no imaginário, ao que temos de mais próximo a um inexistente traje brasileiro. Um artesanato refinado, trabalhoso e delicado, usado para enfeitar batas, vestidos, camisolas, lençóis e toalhas. Um produto cultural e popular, com grande capacidade de produção que nunca foi explorado pelo mercado interno ou pelo de exportação. Um núcleo de preciosa mão-de-obra, à espera de ser mais bem cuidado, apreciado e aproveitado. O Brasil é um país antenado, criativo, trabalhador, feito de uma população de 157 milhões de habitantes, na sua maioria jovem. Está desde 1990 com suas portas abertas para o mundo. Uma passarela e tanto para o mundo vir passar, olhar, vender, comprar, trocar, experimentar. Olho nele que este desfile promete!

Glória Kalil

Paulistana, jornalista, empresária, Glória Kalil é ex-diretora de confecções como a Fiorucci e a Jeigikei, e é "ex-industrial" por opção. Dedica-se desde meados de 1995 à consultoria de estilo e negócios ligados ao campo da moda e do comportamento. Faz palestras e projetos especiais, tais como vídeos, planos de marketing para lojas de varejo e assessorias para indústrias e organizações institucionais como o Senac. Colabora também com matérias de moda para a imprensa escrita, televisão e outas mídias. É autora do livro Chic (São Paulo, Senac, 1997)

To Be or Tupi

Um panorama da dança brasileira por Helena Katz
A dança que mora no Brasil tem duas maneiras básicas de se relacionar com o país: faz ou não faz dele tema de sua irradiação estética. Herança do convívio entre uma concepção importada das cortes européias e outra, nascida nas celebrações dos primeiros habitantes, a nossa dança cênica carrega a ambivalência primordial típica dos países que foram colonizados.
Às vezes, é joão-de-barro (quando constrói a casa e o nome); e noutras, usa mão única e não se volta e nem abre para o local onde mora. No seu miolo, contudo, opera com intensidades variadas nas franjas das duas formas, naquela zona onde algo de ambas se toca - que é o que, geralmente, imprime a textura que a distingue.
Na história recente, o embate mais importante entre o "to be or tupi" foi travado pelo Ballet Stagium, de São Paulo, quando, nos anos 70, decidiu fazer o balé trazido da Europa "falar português". Décio Otero e Márika Gidali, seus diretores, não apenas buscaram temas, autores, músicas e colaboradores brasileiros, como se dedicaram a hibridar na técnica do balé clássico movimentos recolhidos nas danças populares brasileiras.
Duas décadas antes, no Rio de Janeiro, a companhia do Teatro Municipal havia tentado outra forma de sintonia com seu entorno. Acreditando que para fazer dança brasileira bastava usar música e temas nacionais, passou a produzir obras de estrutura idêntica às estrangeiras, às quais os coreógrafos adicionavam algum "toque típico", tipo apresentar índios em sapatilhas de ponta, mas vestindo malhas cor da pele para produzir a impressão de nudez.
Apesar de falsa, esta convicção encontrou ventos semeadores. Sempre que se assiste, ainda hoje, a uma coreografia onde o assunto parece um adereço, sem força para promover mudanças na gramática da obra, se está esbarrando num filhote daquela crença.
Nela, artistas como o pernambucano Toninho Nóbrega ou a mineira Graziela Rodrigues promovem um oásis. Não apenas porque não partem do fora para chegar ao dentro, mas principalmente porque fazem coabitar todas as misturas nesse dentro. Com Graziela Rodrigues, são as culturas das minorias que ganham outro corpo: negros, candomblé, índios. Na carreira de Toninho Nóbrega, um artista que vivenciou as feiras populares, se encontra um excepcional exemplo do trânsito entre todas as artes que domina, da cantoria ao teatro, à música, ao circo, à dança, como também faz com que esse fluxo modifique cada uma delas.
Especificamente com balé, atualmente é Rodrigo Pederneiras quem vem abrindo os canais para uma fluência nova. Coreógrafo do Grupo Corpo, quebra e dobra o eixo vertical da técnica do balé com sinuosidades, requebros e dinâmicas mais típicas dos sujeitos das ruas que das línguas usadas nos teatros.
Não há platéia estrangeira que deixe de identificar como "brasileira" a dança de Toninho Nóbrega, Graziela Rodrigues ou Rodrigo Pederneiras. Fora do balé, pioneiras como Renée Gumiel e Ruth Rachou, por exemplo, cuidaram de sintonizar o Brasil à modernidade nesta segunda metade do século. Mais que espetáculos, ambas criaram escolas que se tornaram centros de referência para quem buscava uma conexão com o seu tempo.
Nos anos 70, coube ao Teatro Galpão e, em seguida, ao Teatro Brasileiro de Comédia (TBC), ambos em São Paulo, concentrar o melhor da inovação. Passaram por seus palcos profissionais como Sônia Mota, Ivaldo Bertazzo, Célia Gouvea e Maurice Vaneau, Mara Borba, Antonio Carlos e Iracity Cardoso, Marilena Ansaldi, Denilto Gomes e Janice Vieira, Clarisse Abujamra, Suzana Yamauchi, Penha de Souza, J.C.Violla e Naum Alves de Souza, Ismael Ivo e mais o Grupo Endança, o Grupo Ex, o Cisne Negro.
Hoje, resíduos dessa época são rastreados naqueles que avançam as suas pesquisas de linguagem: Helena Bastos, Regina Miranda, Vera Sala, Lia Rodrigues, João Saldanha, Gisela Rocha, João Andreazzi, Márcia Milhazes, Márcia Bozon, Thelma Bonavita, Eva Schull, Sandro Borelli, Kleda Muhana e Betty Grebler, entre outros.
Assim como há sotaques, cozinhas e hábitos regionais distintos que se abrigam debaixo do mesmo "teto brasileiro", também a dança cênica que acontece nos nossos palcos se impregna destas variedades geográficas, e as tempera com outras, vindas de além-fronteiras.
Mas fronteiras, num mundo de Internet, têm o seu velho sentido territorial modificado. O corpo dos brasileiros pratica este mesmo sentido desde sempre. Habituado à vastidão das nossas extensões, sabe que só pode produzir dança brasileira no plural. E que sua singularidade vem justamente daí.

Helena Katz

Helena Katz nasceu no Rio de Janeiro, onde se graduou em Filosofia. Começou no jornalismo em 1977, no Jornal da Tarde, colaborou com a Folha de S. Paulo e diversas outras publicações, entre as quais as revistas IstoÉ, Dançar, Marie Claire, SomTrês, Íris, Caderno Idéias do Jornal do Brasil, e Nicolau. Trabalha atualmente como crítica de dança do Caderno 2, do jornal O Estado de S. Paulo. No programa de Estudos em Pós-graduação e Semiótica da PUC-SP, onde se doutorou em 1994, coordena o Laboratório de Dança e atua como professora participante. Sobre dança, escreveu os livros Danças Populares Brasileiras (São Paulo, Projeto Cultural Rhodia, 1989), O Brasil Descobre a Dança Descobre o Brasil (São Paulo, Dórea Books and Art, 1994), Grupo Corpo Companhia de Dança (Belo Horizonte, Salamandra, 1995) e DAS - Um Olhar Contemporâneo (São Paulo, Annablume, 1995), além de vários artigos e prefácios para livros sobre dança.

Música

por José Miguel Wisnik
A música no Brasil desenvolve-se claramente em duas frentes distintas: a tradição escrita (transposta da música européia), também chamada "erudita" ou "de concerto", e a tradição não-escrita (resultante das misturas entre músicas européias, indígenas e africanas), correspondendo às múltiplas formas da música popular. Ambas apresentam desenvolvimentos próprios e, como também acontece em muitos outros países, cruzam-se em certos momentos. No Brasil esses encontros entre o popular e o erudito têm, no entanto, uma importância específica, pois neles está, sem dúvida, uma das marcas singulares da produção musical brasileira.

José Miguel Wisnik

Professor de Literatura Brasileira na Universidade de São Paulo, onde se doutorou em Teoria Literária, José Miguel Wisnik é ensaísta e músico. Publicou O Coro dos Contrários - A Música em Torno da Semana de 22 (São Paulo, Duas Cidades, 1977), Anos 70 / Música (Rio de Janeiro, Europa, 1979, com Ana Maria Bahiana e Margarida Autran), O Nacional e o Popular na Cultura Brasileira / Música (São Paulo, Brasiliense,1982, com Ênio Squeff), O Som e o Sentido - Uma Outra História das Músicas (São Paulo, Companhia das Letras, 1989), entre outros ensaios. Como músico, lançou um CD de canções pelo selo Camerati (José Miguel Wisnik, 1993), e fez música para dança (Nazareth, do Grupo Corpo, 1993), para cinema (Terra Estrangeira, 1995) e teatro (As Boas, 1992, Pentesiléias, 1994, e Mistérios Gozozos, 1995).

Irregulares: "Nunca vi, nem comi. Eu só ouço falar"

Verbo "Ter" no pretérito perfeito: conjugação irregular