Feiras

por Nina Horta
Em qualquer dia da semana pode-se ir a uma feira. Uma ou mais ruas são fechadas para o trânsito e os feirantes lá se arrumam com suas barracas já ao nascer do dia. Os pregões para a venda das mercadorias são animados, gritados ou cantados, sempre com senso de humor, refletindo o momento político, a última fofoca... O cheiro e o colorido das frutas e verduras, o ambiente descontraído, fazem da feira um belo passeio para quem quer conhecer de perto a fartura e variedade de ingredientes. Nas barraquinhas encontramos frutas nativas, como mamão, abacaxi, banana, fruta do conde, abacate, caqui, maracujá e goiaba, e também frutas aclimatadas, como maçã, peras, uvas, mangostões e kiwis. Os legumes e folhas frescas também são abundantes, especialmente em cidades como São Paulo, onde os imigrantes japoneses aumentaram o leque de escolhas. É possível comprar alcachofras, aspargos, beterrabas, brócolis, cenouras, couves-flores, pepinos, berinjelas, muitos tipos de alface, pimentas variadíssimas. Os mercados são como as feiras, mas em ambientes fechados, vendendo de tudo, desde o produto nativo ao importado.

Video: "Essa Negra Fulô"

Região Nordeste

A região Nordeste inclui os Estados do Maranhão, Piauí, Ceará, Rio Grande do Norte, Paraíba, Pernambuco, Alagoas, Sergipe e Bahia, ocupando área de 1.561.177,8 km2, o que corresponde a 18,26% da área total do País. A maior parte de seu território é formada por extenso planalto, antigo e aplainado pela erosão. Em função das diferentes características físicas que apresenta, a região Nordeste encontra-se dividida em quatro sub-regiões: meio-norte, zona da mata, agreste e sertão. A faixa de transição entre o sertão semi-árido do Nordeste e a região Amazônica denomina-se meio-norte, apresentando clima bem mais úmido e vegetação exuberante à medida que avança para o Oeste. A vegetação natural dessa área é a mata dos cocais, onde se encontra a palmeira babaçu, da qual é extraído óleo utilizado na fabricação de cosméticos, margarinas, sabões e lubrificantes. A economia da região Nordeste baseia-se primordialmente na agroindústria do açúcar e do cacau. Há alguns anos, teve início o desenvolvimento de lavouras de fruticultura para exportação na área do vale do rio São Francisco, nos Estados da Bahia e Pernambuco. O petróleo é explorado no litoral e na plataforma continental e processado na refinaria Landulfo Alves, em Candeias, e no Pólo Petroquímico de Camaçari, ambos no Estado da Bahia. O setor de turismo, que tem demonstrado grande potencialidade de desenvolvimento na região, vem crescendo consideravelmente nos últimos anos e apresenta perspectivas promissoras para o futuro. Sua população totaliza 44.768.201 habitantes, o que representa 28,9% do total do País. A expectativa de vida nesta região é a menor do País: 64,22 anos. Sua densidade demográfica é de 28,73 habitantes por km2 e a maior parte da população concentra-se na zona urbana (60,6%). As principais metrópoles regionais são as cidades de Salvador, capital do Estado da Bahia, Recife, capital do Estado de Pernambuco, e Fortaleza, capital do Estado do Ceará. A zona da mata estende-se do Estado do Rio Grande do Norte ao sul do Estado da Bahia, numa faixa litorânea de até 200 km de largura. Possui clima tropical úmido, com chuvas mais freqüentes na época do outono e inverno, exceto no sul do Estado da Bahia, onde se distribuem uniformemente por todo o ano. O solo dessa área é fértil e a vegetação natural é a Mata Atlântica, já praticamente extinta e substituída por lavouras de cana-de-açúcar, desde o início da colonização do País. O agreste é a área de transição entre a zona da mata, região úmida e cheia de brejos, e o sertão semi-árido. Nessa sub-região os terrenos mais férteis são ocupados por minifúndios, onde predominam as culturas de subsistência e a pecuária leiteira. Já o sertão, uma extensa área de clima semi-árido, chega até o litoral, nos Estados do Rio Grande do Norte e Ceará. Os solos dessa sub-região são rasos e pedregosos, as chuvas escassas e mal distribuídas e as atividades agrícolas sofrem grande limitação. A vegetação típica do sertão é a caatinga. Nas partes mais úmidas existem bosques de palmeiras, especialmente a carnaubeira, que tem todas as suas partes aproveitadas pelos habitantes locais. O rio São Francisco é o maior da região e única fonte de água perene para as populações que habitam as suas margens. A economia do sertão nordestino baseia-se na pecuária extensiva e no cultivo de algodão em grandes propriedades de terra, com baixa produtividade.

Região Norte

Com 3.869.637,9 km2 de área - 45,27% do território brasileiro -, a região Norte é formada pelos Estados do Acre, Amapá, Amazonas, Pará, Rondônia, Roraima e Tocantins. Está localizada entre o maciço das Guianas, ao Norte; o Planalto Central, ao Sul; a Cordilheira dos Andes, a Oeste; e o Oceano Atlântico, a Noroeste. De clima equatorial, é banhada pelos grandes rios das bacias Amazônica e do Tocantins. A região Norte possui 11.290.093 habitantes - 7% da população total do País - e uma expectativa de vida de 67,35 anos. Sua densidade demográfica é a mais baixa dentre todas as regiões geográficas, com 2,92 habitantes por km2. A maior parte da população da região Norte (57,8%) é urbana, sendo Belém, capital do Estado do Pará, sua maior metrópole. A economia baseia-se no extrativismo vegetal de produtos como látex, açaí, madeiras e castanha; no extrativismo mineral de ouro, diamantes, cassiterita e estanho; e na exploração de minérios em grande escala, principalmente o ferro, na Serra dos Carajás (Pará), e o manganês, na Serra do Navio (Amapá). No rio Tocantins, no Estado do Pará, encontra-se a usina hidrelétrica de Tucuruí, a maior da região. Existem ainda usinas menores, como Balbina, no rio Uatumã (Amazonas), e Samuel, no rio Madeira (Rondônia). O Governo Federal oferece incentivos fiscais para a instalação de indústrias no Estado do Amazonas, especialmente montadoras de produtos eletroeletrônicos. Esse processo é administrado pela Superintendência da Zona Franca de Manaus e os incentivos deverão permanecer em vigor até pelo menos o ano de 2003.

O Brasil e Suas Regiões

(Textos do CD "Brasil em Foco", do Ministério de Relações Exteriores)
O Brasil encontra-se política e geograficamente dividido em cinco regiões distintas, que possuem traços comuns no que se refere aos aspectos físicos, humanos, econômicos e culturais. Os limites de cada região - Norte, Nordeste, Sudeste, Sul e Centro-Oeste - coincidem sempre com as fronteiras dos Estados que as compõem. A região Norte é a que ocupa a maior parte do território brasileiro, com uma área que corresponde a 45,27% dos 8.547.403,5 de km2 da área total do País. Formada por sete Estados, tem sua área quase totalmente dominada pela bacia do Rio Amazonas. A região Nordeste pode ser considerada a mais heterogênea do País. Dividida em quatro grandes zonas - meio-norte, zona da mata, agreste e sertão -, ocupa 18,26% do território nacional e tem nove estados. No Sudeste, região de maior importância econômica do País, está concentrado também o maior índice populacional - 42,63% dos 157.079.573 brasileiros - e produção industrial. É formada por quatro Estados e apresenta grandes diferenças sob o aspecto físico, com litoral, serras e planícies. Já o Sul, região mais fria do País, com ocorrências de geadas e neve, é a que apresenta menor área, ocupando 6,75% do território brasileiro e com apenas três Estados. Os rios que cortam sua área formam a bacia do Paraná em quase toda sua totalidade e são de grande importância para o País, principalmente pelo seu potencial hidrelétrico. Finalmente, a região Centro-Oeste tem sua área dominada basicamente pelo Planalto Central Brasileiro e pode ser dividida em três porções: maciço goiano-mato-grossense, bacia de sedimentação do Paraná e as depressões. Formado por quatro Estados, esta região vem sofrendo alterações significativas na sua cobertura vegetal, com o cerrado sendo substituído gradativamente por plantações ou criação de gado em função do processo de ocupação nesta parte do Brasil.

"Lembrar-se" é pronominal

Literatura

Literatura
A literatura brasileira evoluiu através de fases tão distintas que seu único fator de unidade se atribui à continuidade do exercício da língua portuguesa. Pois aí reside sua origem: na literatura de expressão portuguesa, da qual começou como um prolongamento, levando vários séculos para adquirir um perfil próprio. Considera-se como primeiro documento literário brasileiro a Carta de Pero Vaz de Caminha, dando conta ao rei português da descoberta da nova terra, em 1500. Essa carta, de certo modo, definiu a linha dominante das letras coloniais nos primeiros séculos, ao fazer a propaganda das riquezas naturais em florestas, abundância de águas, fauna, solo fértil, clima ameno bem diferente dos rigores do hemisfério norte, e índios amigáveis. Esse foi o tom, durante muito tempo, do que se escrevia para exaltar o espaço tropical recentemente anexado. Em meio a toda essa louvação um tanto formular e empertigada soaram, contudo, algumas vozes de fortes acentos, que dariam uma fisionomia mais vivaz ao barroco do segundo século. Entretanto, é só no final do terceiro século que aparece o primeiro movimento literário propriamente dito, quando um grupo de poetas de Minas Gerais, em consonância com o cânone estético europeu de sua época - o arcadismo -, trata de adaptá-lo à sensibilidade local. Também eram partidários de um rompimento com a metrópole e passaram à história por sua participação na Inconfidência Mineira, em 1789. A essa altura, as reivindicações de autoctonia e autonomia dos intelectuais tornavam-se abertamente nativistas, numa fase ainda anterior à consciência de pertencer a uma nação. Eles passam a dar voz ao sentimento de serem filhos de outra terra que não a Europa, mesmo se sua expressão se veicula numa língua européia. O romantismo vai atingir o ponto mais alto da realização e da teorização de uma literatura agora em secessão com sua matriz portuguesa, e não é coincidência que tal tendência se acentue na esteira da independência política efetivada em 1822. Os escritores românticos já estimam que é sua missão histórica construir uma literatura que seja nacional. E cogitam que vincar sua diferença dando vazão ao pitoresco pode implicar uma falácia, a de atender às exigências da alteridade européia. O indianismo, a mais saliente criação nativista, confrontou-se com esse risco. Esse é o debate que ocupa a maior parte do século XIX, quando, após o grito do Ipiranga, torna-se cadente a questão de definir os parâmetros de uma literatura que fosse esteticamente autônoma, a exemplo do País, que agora o era politicamente. A questão em pauta não era das mais simples. Por um lado, havia o argumento de que os autóctones deveriam praticar uma arte que se concentrasse em assuntos locais, na natureza luxuriante dos trópicos e em personagens típicos que não existiam na metrópole, como bandeirantes, gaúchos, sertanejos, escravos negros, índios. É verdade que isso precisava ser feito, e o foi. Por outro lado, insinuava-se a dúvida de que, ao agir assim, os escritores estariam produzindo exotismo para consumo externo. A via que evitasse esses dois escolhos, ou seja, não seguir os padrões alienígenas nem se restringir à cor local, revelava-se extremamente complexa e iria depender de uma construção gradativa, que congregaria os esforços de mais de uma geração de homens de letras. É com a prosa realista que finalmente se atinge a maturidade de uma visão crítica interna, feita de dentro e dirigida àquilo que conferia à nação seu perfil peculiar, após três séculos de desvio do ponto de partida em outro continente. Um tal perfil era a resultante específica de fatores heteróclitos, conflituosamente interagindo numa sociedade colonial nos trópicos, agrícola, patriarcal, escravocrata e mestiça. A superação do realismo é levada a termo pelo modernismo, no século XX. Exorcizados os fantasmas do século anterior através da aquisição daquela maturidade, os modernistas vão encarar de uma outra maneira as relações com a matriz. Ou seja, declaradamente afinando-se com a Europa e ao mesmo tempo em disjunção com ela. Assim, pregaram e praticaram uma arte que abalou iconoclasticamente as bases de um academismo que se institucionalizara nas letras pátrias, representado sobretudo pelos epígonos do naturalismo, do parnasianismo e do simbolismo. Puseram-se em dia com as vanguardas contemporâneas além-fronteiras. E lançaram uma plataforma inédita para lidar com o peculiar paradoxo que sempre inquietara os intelectuais nativos: como afirmar sua personalidade sem cair no pitoresco. A realização de tal projeto cabe a toda a obra, em prosa e verso, do conjunto dos modernistas. Mas encontrou sua particular explicitação no antropofagismo. Este propõe uma atitude não colonizada, onde a devoração sem culpa dos bens da civilização européia ande a par da rejeição de tudo aquilo que não atenda aos interesses do devorador ou que o ponha na posição subalterna do exibicionismo exótico. O percurso estava cumprido e a literatura brasileira pronta para enfrentar outras batalhas. Como aquelas, entabuladas mas ainda não resolvidas, decorrentes do advento da indústria cultural e do impacto da influência norte-americana. E isso, após ter passado tanto tempo a definir-se como específica enquanto floração do entrechoque de várias culturas.

Walnice Nogueira Galvão

Walnice Nogueira Galvão Professora Titular de Teoria Literária e Literatura Comparada da Universidade de São Paulo (USP), Walnice Nogueira Galvão é escritora, ensaísta, crítica de literatura e de cultura. Dedica-se à fase final de um trabalho de muitos anos: o preparo da Edição Crítica de Grande Sertão: Veredas, de Guimarães Rosa (Collection Archives, Paris). Entre suas publicações estão os livros As Formas do Falso - Um Estudo sobre a Ambiguidade no Grande Sertão: Veredas (São Paulo, Perspectiva, 1972); No Calor da Hora - A Guerra de Canudos nos Jornais (São Paulo, Ática, 1974); Saco de Gatos (São Paulo, Duas Cidades, 1976); Mitológica Rosiana (São Paulo, Ática, 1978); Saptamatr (São Paulo, Brasiliense, 1978); Gatos de Outro Saco (São Paulo, Brasiliense, 1981); Euclides da Cunha, organização (São Paulo, Ática, 1984); Edição Crítica de Os Sertões (São Paulo, Brasiliense, 1985); Ensayos sobre Guimarães Rosa (UNAM, 1985); Le Roman Brésilien - Une Littérature Anthropophage au XXe. Siècle, com Mário Carelli (PUF, 1995); e Correspondência de Euclides da Cunha, com Oswaldo Galotti (São Paulo, Edusp, 1996).

Propaganda das Riquezas Naturais

por Walnice Nogueira Galvão
Como exemplos desse tipo de literatura, chamada de "cronistas e viajantes", seguem-se dois trechos. O primeiro pertence aos Diálogos das Grandezas do Brasil (1618), de Ambrósio Fernandes Brandão: "Tem seu princípio esta terra, a respeito do que está hoje em dia povoado dos portugueses, do rio das Amazonas, por outro nome chamado o Pará, que está situado no meio da linha equinocial até a capitania de São Vicente, que é a última das da parte do Sul da dita linha, e entre esta primeira povoação e a última de São Vicente há muitas terras fertilíssimas, povoações, notáveis rios, famosos portos e baías capacíssimas de se recolherem neles e nelas grandes armadas". O segundo é extraído da História do Brasil (1627) de Frei Vicente do Salvador: "Há no Brasil grandíssimas matas de árvores agrestes, cedros, carvalhos, vinháticos, angelins e outras não conhecidas em Espanha, de madeiras fortíssimas para se poderem fazer delas fortíssimos galeões e, o que mais é, que da casca de algumas se tira a estopa para se calafetarem e fazerem cordas para enxárcia e amarras, do que tudo se aproveitam os que querem cá fazer navios, e se pudera aproveitar el-rei se cá os mandara fazer (...). Nem menos são as madeiras do Brasil formosas que fortes, porque as há de todas as cores, brancas, negras, vermelhas, amarelas, roxas, rosadas e jaspeadas, porém, tirado o pau vermelho a que chamam brasil, e o amarelo chamado tataiúba, e o rosado araribá, os mais não dão tinta de suas cores (...). Outras árvores há chamadas caboreíbas, que dão o suavíssimo bálsamo com que se fazem as mesmas curas, e o Sumo Pontíficeo tem declarado por matéria legítima da santa unção e crisma..." Antes deles, no primeiro século, o Padre José de Anchieta (1534-1597) se defrontava com os problemas do bilingüismo, ao escrever peças de teatro em tupi endereçadas à conversão dos índios, além de ser bom poeta lírico no registro religioso. Pouco depois, Bento Teixeira escrevia a Prosopopéia (1601), considerada a primeira obra literária legitimamente brasileira, poema encomiástico - do tipo que vicejaria nos tempos coloniais - em louvor do donatário da capitania de Pernambuco.

Religião

Pouco Padre, Pouca Missa e Muita Festa
O Brasil é um país católico, mas o Brasil é, também, o país da abertura religiosa, da variedade de crenças e do sincretismo. É esta dupla verdade que faz a beleza e as agruras da religiosidade brasileira. O País foi oficialmente católico por quatro séculos, do descobrimento em 1500 até o fim do Império, em 1889, fato jurídico que condenava as outras religiões à ilegalidade. Sob o regime de "Padroado", a Igreja foi entregue à direção dos reis de Portugal e, mais tarde, dos imperadores do Brasil. Acontece, no entanto, que as instituições oficiais tinham pouca penetração na sociedade que se formava no País. A Igreja, assim como o Estado, era um corpo centralizado na metrópole que perdia densidade à medida que se espalhava pelos territórios coloniais. Esta fragilidade institucional caracteriza o catolicismo latino-americano até os nossos dias. Cerca de 80% das paróquias existentes no Brasil foram organizadas no século XX, sendo 50% a partir da década de 50. As paróquias cobrem imensos territórios e assistem uma grande população. Enquanto na França uma paróquia tem uma área territorial média de 15 km2 e cerca de 1.283 fiéis, na América do Sul estes números saltam para 1 mil km2 e 14.036 pessoas. Difundiu-se aqui, em conseqüência, a figura da "Desobriga". O sacerdote percorria as vastas terras sob sua responsabilidade, "desobrigando" os fiéis de seus compromissos canônicos: batizava, casava, pregava, regularizava as situações e partia para a aldeia seguinte. Os fiéis ficavam e o padre passava. Configurou-se, assim, um tipo de catolicismo que se caracteriza, como se diz, por "pouco padre, pouca missa e muita festa". Pouco padre e pouca missa implicam pouco controle doutrinal. A maioria dos católicos brasileiros toma amplas liberdades diante dos ensinamentos oficiais da Igreja. A própria noção de uma ortodoxia é quase ausente. Não há, na cultura religiosa brasileira, um pressuposto de que as pessoas, para guardar coerência, devam acreditar numa única versão dos fatos sagrados. Na prática, os católicos brasileiros orientaram a sua devoção pelo ritmo do calendário litúrgico. Com ou sem padre, todo dia é dia de santo, ensejando festejos próprios a cada devoção particular. Oratórios domésticos, capelas de beira de estrada, procissões, romarias, promessas, a reza do Terço, irmandades, podiam ser animados sob lideranças leigas, capitaneadas pelos festeiros do lugar. O culto aos santos foi, portanto, supervalorizado, enquanto a Eucaristia era relegada a um segundo plano. A "proteção" dada pelos santos padroeiros diante das incertezas da vida tornou-se um núcleo estruturante das crenças e das práticas mais difundidas. As missas são importantes, sem dúvida, mas configuram uma situação especial, fora do comum. Segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE-PNAD, 1988), apenas 17% dos católicos freqüentam a missa regularmente, num ritmo semanal. Sendo pouco regulado pela instituição eclesial, o culto aos santos abriu-se para uma série de articulações sincréticas. Na Amazônia, onde as tradições indígenas são mais influentes, os santos católicos, de origem transatlântica, fazem contraponto a entidades espirituais que povoam o "fundo" das matas e dos rios. A pajelança, exercida por sacerdotes leigos, orienta os fiéis católicos no uso das ervas sagradas e na lida ritual com as entidades "encantadas" que habitam a profundeza das águas. Já na Colônia, a Inquisição dava notícia da influência africana sobre as crenças dos portugueses no Brasil. Entre os santos de origem medieval, cujas festas a todos envolviam, e as entidades cultuadas pelos escravos, eventualmente freqüentadas pelos senhores, o País tecia um intrincado padrão de práticas religiosas. No final do século XIX, tradições nagô impuseram-se na memória africana, dando-lhe uma forma que se difundiu pelo território nacional. O Candomblé da Bahia, o Xangô do Recife, a Mina do Maranhão, apresentam, com variações, um conjunto comum de crenças e de práticas. Em todos os casos, o culto afro-brasileiro integra-se ao calendário católico. Descansa na quaresma até o sábado de aleluia, como em sinal de respeito ao drama maior da morte e ressurreição de Cristo, e combina as festas dos orixás com as festas dos santos. O contraste original europeu/africano é marcante, mas a participação atravessa as classes e as raças. No Brasil, a religiosidade não constitui identidades culturais exclusivas. Brancos e negros participam das celebrações do dia e da noite, e as crenças veiculadas pelos antigos escravos ganham hoje ampla difusão entre as classes médias. Uma terceira vertente foi introduzida pelo Espiritismo Kardecista, que cresceu no Brasil a partir do século XIX. Situado no contexto cristão, o espiritismo se destaca pela comunicação com as almas. Ajuda-as a encontrar e a seguir o seu caminho no vasto processo evolutivo, que se cumpre através de sucessivas reencarnações. O relacionamento com as almas dos mortos já era uma prática importante na tradição ibérica, associada à doutrina medieval do purgatório. Ainda hoje, a cada segunda-feira, dia consagrado às almas, velas acesas espalham-se pelas cidades do País, iluminando as orações pelos mortos. O espiritismo desenvolveu esta dimensão da religiosidade portuguesa, emprestando-lhe densidade ritual e um novo sentido teórico. Entre os santos, os orixás e as almas formou-se um campo tão rico de entidades espirituais, que uma nova religião surgiu, com características francamente brasileiras. É a Umbanda, invenção do século XX. Valoriza os santos católicos e os orixás africanos, mas abre espaço para guias espirituais de um outro perfil: são personagens locais, espíritos desencarnados, que escapam às hierarquias da sociedade formal. É o caboclo, figura livre e ousada das matas; o preto velho, escravo combalido pelos trabalhos de uma vida, porém pleno de sabedoria; os exus, com o "povo das ruas", como o malandro Zé Pilintra, as pombas giras, as ciganas ou o boiadeiro das longas viagens; e as crianças, travessas. A Umbanda demonstrou, com o seu sucesso, que os católicos brasileiros gostam de ouvir as vozes que emergem das margens da sociedade. Esta disponibilidade para assimilar outras e novas crenças é potencializada com o avanço das comunicações. Migrantes japoneses trazem mensagens como as da Perfect Liberty ou da Igreja Messiânica, que atraem um número expressivo de brasileiros de múltiplas origens. As meditações orientais, o Budismo, o Sufismo, a mística esotérica, a ufologia encontram terreno fértil para se expandirem, sobretudo entre as classes médias. Em meio a esta profusão de entidades espirituais, algumas reações importantes fizeram-se notar nas últimas décadas. Dentre elas, duas se destacam: a Teologia da Libertação e os movimentos evangélicos e pentecostais. Ambas concentram a sua atenção no drama central da tradição cristã, deixando de lado, ou mesmo combatendo a comunicação com as almas, os guias, os orixás, os avatares e os santos. São portadoras de mensagens de reforma que devem ter conseqüências para a modernização da cultura religiosa do País. A Teologia da Libertação teve o seu apogeu nos anos 70 e 80. Propôs uma leitura histórica da morte e ressurreição de Cristo, numa retomada da tradição messiânica de origem judaica. Organizando-se em pequenas comunidades de leitura bíblica (as Comunidades Eclesiais de Base - CEBs) ou em pastorais especializadas em movimentos sociais (da terra, indígena, de menores etc.), desenvolveu uma visão social das promessas cristãs de salvação. Os evangélicos e pentecostais também se organizam em congregações locais, com alto índice de participação dos seus adeptos, onde a mensagem de salvação é dirigida sobretudo aos indivíduos e às relações interpessoais. A doença, as dificuldades familiares, as crises materiais e de emprego são objeto de orações com um sentido de cura e redenção. Animados pela presença do Espírito Santo, evangélicos e pentecostais multiplicam-se num ritmo impressionante. Configuram o maior fenômeno religioso do fim do século XX. Dizem que é preciso "nascer de novo", dar as costas ao passado e abrir-se para mudanças radicais no modo de vida, inspiradas única e exclusivamente por Jesus Cristo. O catolicismo é uma religião totalizante, que pretende incluir em seu seio a variedade das experiências humanas. O catolicismo brasileiro cumpriu esta vocação abrindo-se para múltiplas combinações sincréticas. Resulta uma cultura religiosa capaz de abrigar tantas visões quantas lhe sejam apresentadas pela história da comunicação entre os povos. Não é livre de conflitos, mas lida com eles, no plano das crenças, com uma notável margem de tolerância e uma intrigante curiosidade positiva pelas verdades que ainda estão por chegar.

Verbos no Pretérito Perfeito e Imperfeito

O uso do Presente do Indicativo

Verbo de ligação "Ser"

Rubem César Fernandes

Rubem César Fernandes formou-se em História, na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), fez mestrado em Filosofia, na Universidade de Varsóvia (Polônia), e tornou-se PhD na Universidade de Colúmbia (Nova York). Foi professor na Universidade de Colúmbia, na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), no Museu Nacional (Rio de Janeiro), na UFRJ e na Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ). É secretário executivo do Instituto de Estudos da Religião (ISER) e secretário executivo do Viva Rio. Autor, entre outros, de Romarias da Paixão (Rio de Janeiro, Rocco, 1995), Privado Porém Público (Rio de Janeiro, Relume Dumará, 1995), Vocabulário de Idéias Passadas (São Paulo, Relume Dumará, 1995) e Novo Nascimento - Os Evangélicos em Casa, na Igreja e na Política (no prelo).

Gostar sempre pede a preposição "de"

Nina Horta

Nina Horta, cronista gastronômica do jornal Folha de S. Paulo e autora do best seller Não é Sopa (São Paulo, Companhia das Letras, 1996), é formada em Filosofia da Educação pela Universidade de São Paulo e é dona do buffet Ginger, um dos mais conhecidos na cidade de São Paulo.

2 Bicudos: presente e no pretérito perfeito

Xibom Bombom: tudo no presente

Babado no pretérito perfeito e imperfeito